IFRS 9: Classificação de Instrumentos Financeiros e Impactos da Reforma Tributária 2025

Profissional de finanças analisando relatórios e digitando em notebook, representando a aplicação da IFRS 9 e os impactos da reforma tributária de 2025

Tempo de leitura: 6 minutos

A IFRS 9 (Instrumentos Financeiros) revolucionou a forma como empresas classificam, mensuram e reconhecem perdas em seus ativos e passivos financeiros. Com a implementação gradual da reforma tributária brasileira em 2025 — introduzindo o IBS (Imposto sobre Bens e Serviços), CBS (Contribuição sobre Bens e Serviços) e o Imposto Seletivo — a aplicação correta da IFRS 9 tornou-se ainda mais crítica para a transparência das demonstrações financeiras.

Este guia prático aborda os fundamentos da classificação de instrumentos financeiros conforme IFRS 9, as metodologias de mensuração e os impactos específicos que a nova estrutura tributária brasileira trará para a contabilização de ativos financeiros, créditos tributários e instrumentos de hedge utilizados por empresas de todos os portes.

Índice de Conteúdo

Fundamentos da IFRS 9: Uma Nova Abordagem

A Evolução da IAS 39 para IFRS 9

A IFRS 9 substituiu a complexa IAS 39 em 2018, trazendo simplificações significativas e uma abordagem mais prospectiva para reconhecimento de perdas. As principais mudanças incluem:

Modelo Simplificado de Classificação:

  • Redução de categorias (de 4 para 3 principais)
  • Critérios objetivos baseados em dois pilares
  • Menor subjetividade e interpretação

Impairment Prospectivo:

  • Perda esperada (forward-looking) vs. perda incorrida
  • Modelo de três estágios baseado em deterioração de crédito
  • Incorporação obrigatória de informações macroeconômicas

Hedge Accounting Flexibilizado:

  • Alinhamento com práticas de gestão de risco
  • Eliminação do teste quantitativo rígido (80-125%)
  • Maior elegibilidade de instrumentos e itens hedgeados

💡 Por que isso importa em 2025?

Com a reforma tributária alterando estruturas de fluxo de caixa, custos de capital de giro e exposição cambial de empresas brasileiras, a correta aplicação da IFRS 9 garantirá que demonstrações financeiras reflitam adequadamente riscos e retornos dos instrumentos financeiros no novo ambiente tributário.

Classificação de Ativos Financeiros: Modelo de Negócio

Os Dois Pilares da Classificação

A IFRS 9 estabelece que a classificação de um ativo financeiro depende de dois critérios simultâneos:

  1. Modelo de Negócio da entidade para gestão dos ativos financeiros
  2. Características dos Fluxos de Caixa Contratuais do ativo (Teste SPPI)

Modelos de Negócio Reconhecidos

1. Manter para Receber Fluxos Contratuais (Hold to Collect)

Objetivo: Manter ativos financeiros com o propósito de receber fluxos de caixa contratuais (juros e principal) ao longo do tempo.

Características:

  • Vendas são incidentais ou raras
  • Foco em recebimento de pagamentos contratuais
  • Gestão passiva do portfólio

Exemplos típicos:

  • Carteira de empréstimos a clientes
  • Títulos de dívida mantidos até o vencimento
  • Contas a receber de operações comerciais
  • CDBs e LCIs destinados à aplicação de caixa operacional

Indicadores práticos:

  • Política interna de manutenção até vencimento
  • Baixa rotatividade histórica do portfólio
  • Vendas antecipadas apenas por deterioração de crédito ou necessidade emergencial de liquidez

📌 Exemplo Prático:

Empresa de varejo mantém aplicações em CDB pós-fixado (CDI + 0,5%) com vencimento em 24 meses. A política financeira estabelece que esses recursos são destinados à sazonalidade de capital de giro e devem ser mantidos até o vencimento.

Classificação: Se passar no teste SPPI (próxima seção) → Custo Amortizado

2. Manter para Receber e Vender (Hold to Collect and Sell)

Objetivo: Tanto receber fluxos de caixa contratuais quanto vender ativos quando estratégico.

Características:

  • Gestão ativa do portfólio
  • Vendas são parte integral da estratégia
  • Foco tanto em cupom quanto em ganhos de capital

Exemplos típicos:

  • Tesouraria com gestão ativa de títulos públicos
  • Portfólio de debêntures com rebalanceamento periódico
  • Gestão de duration de carteira de renda fixa

Indicadores práticos:

  • Política de gestão prevendo vendas estratégicas
  • Monitoramento de valor justo e marcação a mercado
  • Decisões baseadas em oportunidades de mercado

📌 Exemplo Prático:

Banco mantém carteira de LTNs e NTN-Bs que são vendidas periodicamente para ajustar duration, capturar ganhos de taxa ou atender necessidades de liquidez. No ano, vendeu 40% da carteira.

Classificação: Se passar no teste SPPI → Valor Justo por Outros Resultados Abrangentes (VJORA/FVOCI)

3. Outros Modelos de Negócio

Objetivo: Maximizar fluxos de caixa através da venda de ativos, negociação ativa (trading).

Características:

  • Foco primário em valor justo
  • Alta rotatividade de portfólio
  • Decisões baseadas em movimentos de mercado

Exemplos típicos:

  • Mesa de operações (trading desk)
  • Carteira proprietária de banco
  • Gestão especulativa de commodities financeiras

Classificação: Valor Justo por Resultado (VJR/FVPL) — independentemente do teste SPPI

Teste SPPI: Características dos Fluxos de Caixa

O Teste de “Solely Payments of Principal and Interest”

O teste SPPI (Solely Payments of Principal and Interest) determina se os fluxos de caixa contratuais do ativo são apenas pagamentos de principal e juros sobre o principal em aberto.

Definições fundamentais:

Principal:

  • Valor justo do ativo financeiro no reconhecimento inicial
  • Pode variar ao longo da vida do instrumento (amortizações)

Juros:

  • Remuneração pelo valor do dinheiro no tempo
  • Remuneração pelo risco de crédito do período
  • Remuneração por custos básicos de empréstimo e margem de lucro

Instrumentos que PASSAM no Teste SPPI

✅ Exemplos Comuns:

1. Empréstimos e Financiamentos Simples

Empréstimo de R$ 100.000
Taxa: CDI + 3,5% ao ano
Prazo: 36 meses
Amortização: SAC

Análise: Fluxos são apenas principal + juros (CDI reflete tempo, spread reflete risco) → PASSA

2. Títulos Públicos Federais

  • LTN (prefixado)
  • NTN-B (atrelada ao IPCA)
  • LFT (atrelada à Selic)

Análise: Todos pagam apenas principal + juros conforme estrutura → PASSA

3. Debêntures Simples

Debênture não conversível
Cupom: IPCA + 6% ao ano
Pagamento semestral
Vencimento: 5 anos

Análise: Fluxos são previsíveis e apenas principal + juros → PASSA

4. Contas a Receber Comerciais

Venda a prazo: R$ 10.000
Juros: 2% ao mês
Prazo: 6 meses

Análise: Fluxos contratuais são apenas principal + juros moratórios → PASSA

Instrumentos que NÃO PASSAM no Teste SPPI

❌ Exemplos de Falha:

1. Instrumentos Conversíveis

Debênture conversível em ações
Conversão: 1.000 ações por debênture
Taxa: IPCA + 4%

Análise: Opção de conversão introduz variabilidade não relacionada a principal/juros → FALHA

2. Derivativos

  • Contratos futuros
  • Opções (call/put)
  • Swaps
  • Forwards

Análise: Payoff não é baseado em principal + juros, mas em variáveis de mercado → FALHA

3. Instrumentos com Alavancagem

Nota estruturada com retorno de 200% da variação do dólar
Principal protegido, mas upside multiplicado

Análise: Alavancagem (multiplicador) excede juros pelo valor do dinheiro no tempo → FALHA

4. Instrumentos com Pagamento Variável Desalinhado

Título com cupom baseado em receita da empresa emissora
Pagamento: 5% da receita anual ou mínimo de IPCA + 2%

Análise: Componente de receita não reflete apenas tempo/risco de crédito → FALHA

5. Ações e Fundos de Investimento

  • Ações ordinárias/preferenciais
  • Cotas de fundos (FIAs, FIPs, multimercado)

Análise: Retorno baseado em performance, não em fluxos contratuais de P+I → FALHA

Categorias de Mensuração e Tratamento Contábil

Matriz de Decisão: Modelo + SPPI = Categoria

Modelo de NegócioTeste SPPICategoriaGanhos/Perdas
Manter para Receber✅ PassaCusto AmortizadoSó quando vende ou impairment
Manter e Vender✅ PassaVJORA (FVOCI)Em OCI (exceto juros/impairment no resultado)
Outros✅ PassaVJR (FVPL)Integralmente no resultado
Qualquer❌ FalhaVJR (FVPL)Integralmente no resultado

Custo Amortizado (Amortized Cost)

Mensuração:

Custo Amortizado = Valor Inicial
                   + Juros Efetivos Acumulados
                   - Pagamentos Recebidos
                   - Perdas por Impairment

Características:

  • Estabilidade no balanço (não reflete flutuações de mercado)
  • Reconhecimento de receita de juros pelo método da taxa efetiva
  • Impairment reduz diretamente o valor contábil

Quando usar:

  • Recebíveis comerciais
  • Empréstimos mantidos em carteira até vencimento
  • Aplicações financeiras de gestão passiva

📌 Exemplo Prático:

Empresa adquiriu CDB de R$ 100.000 com taxa prefixada de 12% ao ano (1% ao mês) por 12 meses.

Mês 1:

Juros: R$ 100.000 × 1% = R$ 1.000
D – Aplicações Financeiras (Ativo) R$ 1.000
C – Receitas Financeiras (Resultado) R$ 1.000

Não há ajuste a valor justo, mesmo que taxas de mercado mudem. No vencimento, recebe R$ 112.682,50 (juros compostos).

Valor Justo por Outros Resultados Abrangentes (FVOCI)

Mensuração:

  • Marcação a valor justo em cada data de balanço
  • Variações de valor justo vão para OCI (Patrimônio Líquido)
  • Juros e impairment vão para resultado

Reciclagem:

  • Quando vendido, acumulado em OCI é “reciclado” para resultado
  • Reconciliação entre PL e resultado na venda

Quando usar:

  • Títulos públicos em gestão ativa de tesouraria
  • Carteiras de renda fixa com rebalanceamento estratégico

📌 Exemplo Prático:

Banco adquiriu LTN por R$ 95.000 (valor justo). Ao final do trimestre, valor justo subiu para R$ 97.000.

D – Aplicações Financeiras (Ativo) R$ 2.000
C – Ajuste de Valor Justo – OCI (Patrimônio) R$ 2.000

Se vender por R$ 98.000 no trimestre seguinte:

D – Caixa R$ 98.000
C – Aplicações Financeiras (Ativo) R$ 97.000
C – Ganho na Venda (Resultado) R$ 1.000

Reclassificação de OCI para Resultado:
D – Ajuste de Valor Justo – OCI (Patrimônio) R$ 2.000
C – Ganho na Venda (Resultado) R$ 2.000

Total no Resultado = R$ 1.000 + R$ 2.000 = R$ 3.000

Valor Justo por Resultado (FVPL)

Mensuração:

  • Marcação a valor justo em cada data de balanço
  • Todas as variações vão diretamente para resultado
  • Maior volatilidade na DRE

Quando usar:

  • Trading (mesa de operações)
  • Derivativos
  • Instrumentos que falharam no teste SPPI
  • Opção irrevogável (fair value option)

Instrumentos de Patrimônio: Tratamento Especial

Regra Geral para Ações

Investimentos em ações (instrumentos de patrimônio) são mensurados ao valor justo por resultado (FVPL) — exceto se houver controle, controle conjunto ou influência significativa.

Opção Irrevogável: FVOCI sem Reciclagem

A IFRS 9 permite opção irrevogável de mensurar instrumentos de patrimônio ao FVOCI, com as seguintes características:

Diferenças críticas vs. FVOCI de dívida:

  • SEM reciclagem: Ganhos/perdas acumulados em OCI nunca vão para resultado
  • ✅ Dividendos reconhecidos no resultado (quando direito estabelecido)
  • ✅ Reduz volatilidade da DRE
  • ❌ Irrevogável: uma vez escolhido, não pode mudar

Quando considerar:

  • Participações estratégicas (não negociáveis)
  • Investimentos de longo prazo sem intenção de venda
  • Gestão que prefere estabilidade no resultado

Reforma Tributária: Impactos na IFRS 9

Mudanças no Cenário Tributário Brasileiro

A partir de 2026, o Brasil implementará gradualmente:

  • IBS (Imposto sobre Bens e Serviços): Estadual e municipal unificado
  • CBS (Contribuição sobre Bens e Serviços): Federal, substitui PIS/COFINS
  • Imposto Seletivo: Sobre produtos específicos (bebidas, cigarros, etc.)

Impactos na Classificação de Instrumentos Financeiros

1. Créditos Tributários a Recuperar

Cenário Atual (PIS/COFINS): Empresas acumulam créditos de PIS/COFINS sobre insumos que são recuperados através de compensação.

Classificação IFRS 9:

  • Modelo de negócio: Manter para receber (compensação com débitos futuros)
  • Teste SPPI: Analisar se fluxo é “apenas” recuperação de principal

Novo Cenário (IBS/CBS): Créditos de IBS e CBS terão características diferentes:

  • Prazo médio de recuperação pode mudar
  • Método de apuração não-cumulativo com diferenças
  • Ressarcimento de saldos credores em dinheiro (em algumas situações)

Impacto potencial: Se créditos IBS/CBS forem ressarcíveis em dinheiro com correção monetária, podem ser reclassificados para:

  • Custo Amortizado: Se correção refletir apenas valor do dinheiro no tempo
  • FVPL: Se houver componentes especulativos ou variabilidade excessiva

2. Instrumentos de Hedge Cambial

Contexto: Com IBS/CBS alterando estrutura de custos, empresas exportadoras e importadoras precisarão revisar estratégias de hedge.

Impacto IFRS 9:

  • Revisão de efetividade: Hedges existentes podem perder efetividade se estrutura de fluxo de caixa mudar
  • Redesignação: Necessidade de descontinuar e redesignar hedges para refletir novo ambiente
  • Documentação: Atualizar documentação de hedge accounting considerando nova tributação

📌 Exemplo Prático:

Exportadora que fazia hedge de fluxo de caixa em dólar considerando margem líquida após PIS/COFINS precisará:

  1. Recalcular margem esperada com IBS/CBS
  2. Ajustar volume hedgeado (hedge ratio)
  3. Redesignar operações de hedge
  4. Testar prospectivamente a nova relação de hedge

Créditos Tributários de IBS e CBS

Análise Técnica de Classificação

Características dos Créditos IBS/CBS:

Apuração:

  • Sistema não-cumulativo (crédito sobre insumos)
  • Período de apuração mensal
  • Compensação automática com débitos

Recuperação:

  • Primária: Compensação com débitos do mesmo tributo
  • Secundária: Ressarcimento em dinheiro (quando saldo credor persistente)
  • Prazo: Legislação a definir, mas espera-se trimestral para ressarcimento

Modelo de Negócio para Créditos Tributários

Opção 1: Manter para Compensar (Majoritário)

Para empresas com operações balanceadas:

  • Créditos de aquisições compensam débitos de vendas
  • Ciclo mensal/trimestral
  • Raramente geram saldo a ressarcir

Classificação sugerida: Custo Amortizado (se teste SPPI passar)

Opção 2: Acumular para Ressarcir (Exportadores/Setor Específico)

Para empresas com saldo credor estrutural:

  • Exportadores (vendas com alíquota zero)
  • Produtores de itens com alíquota reduzida
  • Acumulação sistemática de créditos

Classificação sugerida: Depende da taxa de correção no ressarcimento

  • Se correção = Selic ou IPCA → Custo Amortizado
  • Se sem correção ou correção atípica → Analisar FVPL

Teste SPPI para Créditos Tributários

Análise crítica:

Principal = Valor do crédito acumulado (ex: R$ 50.000)
Juros = Correção monetária no período até ressarcimento

Pergunta-chave: A correção é apenas valor do dinheiro no tempo?

Se correção = Selic:

  • ✅ Reflete valor do dinheiro no tempo
  • ✅ Componente de risco (taxa oficial)
  • Conclusão: PASSA no teste SPPI

Se correção = Taxa especial ou ausente:

  • ❌ Pode não refletir adequadamente valor do tempo
  • ❌ Cria desalinhamento de valor
  • Conclusão: Analisar caso a caso, pode FALHAR

Perda Esperada: Ajustes para o Novo Cenário

Modelo de Três Estágios (Revisão)

A IFRS 9 exige provisão para perda esperada de crédito com base prospectiva:

Estágio 1: Risco normal → Provisão de 12 meses

Estágio 2: Deterioração significativa → Provisão lifetime

Estágio 3: Default → Provisão lifetime (valor máximo)

Impactos da Reforma Tributária no Impairment

1. Recebíveis de Clientes

Variáveis que afetam capacidade de pagamento:

Estrutura de Custos:

  • IBS/CBS podem alterar fluxo de caixa de clientes
  • Setores com aumento de carga efetiva → maior risco
  • Setores com redução de carga → menor risco

Ajustes no Modelo de PD (Probability of Default):

PD 2026+ = PD Base × Fator de Ajuste Setorial × Fator Macroeconômico

📌 Exemplo Prático:

Distribuidora de alimentos com carteira de R$ 10 milhões em recebíveis de varejos pequenos.

Análise:

  • Varejo alimentar: Expectativa de redução de carga tributária com IBS/CBS
  • Melhora estrutural de margem dos clientes
  • Ajuste: Redução de 15% na PD esperada para 2026

Impacto:

Provisão Anterior (2025): R$ 10M × 2,5% = R$ 250.000
Provisão Ajustada (2026): R$ 10M × 2,1% = R$ 210.000
Reversão: R$ 40.000 (ganho no resultado)

2. Informações Prospectivas (Forward-Looking)

A IFRS 9 exige incorporação de informações macroeconômicas prospectivas.

Variáveis relevantes para 2025-2027:

  • Taxa Selic e expectativas
  • Crescimento do PIB (impacto do choque tributário)
  • Inflação (IPCA — transição para IBS/CBS)
  • Taxa de desemprego
  • Índices setoriais específicos

Cenários múltiplos recomendados:

CenárioProbabilidadePIB 2026Selic médiaAjuste PD
Otimista20%+3,5%9,5%-20%
Base60%+2,5%10,5%0%
Pessimista20%+1,0%12,0%+30%

Provisão Ponderada:

Provisão = (Cenário Otimista × 20%) + (Cenário Base × 60%) + (Cenário Pessimista × 20%)

Casos Práticos e Exemplos

Caso 1: Indústria com Créditos Acumulados

Situação: Indústria de bens de capital com R$ 5 milhões em créditos de PIS/COFINS acumulados. Com IBS/CBS, espera acumular R$ 8 milhões/ano.

Pergunta: Como classificar esses créditos?

Análise:

Passo 1 — Modelo de Negócio:

  • Empresa não tem débitos suficientes para compensar (exporta 70%)
  • Vai solicitar ressarcimento trimestral
  • Modelo: Manter para ressarcir (similar a “hold to collect”)

Passo 2 — Teste SPPI:

  • Legislação prevê correção pela Selic
  • Ressarcimento = Principal + Selic acumulada
  • Resultado: PASSA no teste SPPI

Classificação Final: Custo Amortizado

Contabilização:

Acúmulo de crédito (compra de insumo):
D – Créditos Tributários IBS/CBS (Ativo) R$ 800.000
C – Caixa/Fornecedores R$ 800.000

Correção trimestral (Selic 2,5%):
D – Créditos Tributários IBS/CBS (Ativo) R$ 20.000
C – Receitas Financeiras (Resultado) R$ 20.000

Ressarcimento:
D – Caixa R$ 820.000
C – Créditos Tributários IBS/CBS (Ativo) R$ 820.000

Caso 2: Banco Regional com Carteira de Recebíveis

Situação: Banco regional com carteira de R$ 500 milhões em empréstimos para PMEs. Reforma tributária reduzirá carga para 60% dos clientes, mas aumentará para 40%.

Pergunta: Como ajustar modelo de impairment?

Análise:

Segmentação da Carteira:

Segmento A (60% — R$ 300M): Redução de carga

  • Ajuste de PD: -20%
  • PD anterior: 5% → Nova PD: 4%

Segmento B (40% — R$ 200M): Aumento de carga

  • Ajuste de PD: +35%
  • PD anterior: 8% → Nova PD: 10,8%

Cálculo de Provisão Ajustada:

Segmento A:
Provisão anterior: R$ 300M × 5% = R$ 15M
Provisão nova: R$ 300M × 4% = R$ 12M
Variação: -R$ 3M (reversão)

Segmento B:
Provisão anterior: R$ 200M × 8% = R$ 16M
Provisão nova: R$ 200M × 10,8% = R$ 21,6M
Variação: +R$ 5,6M (aumento)

Total: +R$ 2,6M (aumento líquido)

Lançamento:

D – Despesa com Provisão (Resultado) R$ 2.600.000
C – Perdas Estimadas em Créditos (Redutora) R$ 2.600.000

Caso 3: Varejista com Hedge de Importações

Situação: Varejista importa 40% dos produtos (dólar). Fazia hedge de fluxo de caixa considerando margem após PIS/COFINS de 15%.

Pergunta: Impacto da reforma no hedge?

Análise:

Margem Anterior (PIS/COFINS):

  • Preço de venda: R$ 100
  • PIS/COFINS: 9,25% = R$ 9,25
  • Margem base: R$ 15 (antes de outros custos)

Margem Nova (IBS/CBS — alíquota estimada 12%):

  • Preço de venda: R$ 100
  • IBS/CBS: 12% = R$ 12
  • Margem base: R$ 13 (redução de R$ 2)

Impacto no Hedge:

  • Margem menor → Menor exposição líquida ao dólar
  • Hedge atual pode estar sobre-hedgeado
  • Risco: inefetividade do hedge (parte pode virar especulação)

Ação requerida:

  1. Redesignar hedge com nova exposição
  2. Descontinuar parcela excedente
  3. Documentar mudança em função de alteração estrutural

Checklist de Implementação 2025

Fase 1: Análise Preliminar (Novembro 2025)

  • Mapear todos os instrumentos financeiros da empresa
  • Identificar créditos tributários de PIS/COFINS que migrarão para IBS/CBS
  • Revisar políticas de gestão de tesouraria e modelo de negócio
  • Identificar instrumentos impactados pela reforma tributária
  • Consultar assessoria jurídica sobre regras de ressarcimento IBS/CBS

Fase 2: Classificação e Reclassificação (Dezembro 2025)

  • Aplicar teste SPPI em novos instrumentos adquiridos
  • Avaliar necessidade de reclassificação de créditos tributários
  • Documentar mudanças de modelo de negócio (se houver)
  • Atualizar políticas contábeis para refletir IBS/CBS
  • Preparar nota explicativa sobre mudanças

Fase 3: Perda Esperada (Dezembro 2025)

  • Revisar premissas macroeconômicas (PIB, Selic, inflação)
  • Incorporar impactos setoriais da reforma tributária
  • Ajustar modelos de PD/LGD por segmento de cliente
  • Executar análise de sensibilidade
  • Calcular provisão ajustada e comparar com período anterior

Fase 4: Hedge Accounting (Dezembro 2025)

  • Revisar efetividade prospectiva de hedges existentes
  • Identificar hedges que perderam efetividade por mudança estrutural
  • Redesignar hedges conforme nova exposição
  • Atualizar documentação de hedge accounting
  • Testar relação de hedge com novos parâmetros

Fase 5: Divulgações (Janeiro 2026)

  • Preparar notas explicativas sobre classificação de instrumentos
  • Divulgar impactos da reforma tributária na IFRS 9
  • Evidenciar premissas de perda esperada ajustadas
  • Explicar reclassificações e descontinuidades de hedge
  • Preparar análise de sensibilidade para auditoria

Considerações Finais

A IFRS 9 trouxe simplicidade e objetividade para a classificação de instrumentos financeiros, mas exige julgamento profissional criterioso, especialmente em períodos de mudanças estruturais como a reforma tributária brasileira de 2025.

Para profissionais contábeis e gestores financeiros, dominar a interação entre IFRS 9 e o novo ambiente tributário (IBS/CBS) é fundamental para:

  • Garantir conformidade regulatória com CVM e CFC
  • Apresentar demonstrações financeiras fidedignas
  • Gerenciar adequadamente riscos de crédito e mercado
  • Preparar-se para auditoria externa com documentação robusta

A transição para IBS e CBS não impacta apenas a área tributária — suas repercussões atravessam toda a estrutura de relatórios financeiros, especialmente na aplicação da IFRS 9.

Recursos Adicionais

Para aprofundar seus conhecimentos sobre normas IFRS e reforma tributária:

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