A reforma tributária aprovada em 2023 trará mudanças profundas na elaboração da DRE (Demonstração do Resultado do Exercício) a partir de 2026. Com a substituição de cinco tributos por apenas dois — CBS e IBS —, a estrutura das demonstrações financeiras das empresas brasileiras passará por uma transformação histórica.
Neste artigo, você vai entender como a reforma tributária afetará a DRE da sua empresa, quais são os principais impactos na apuração de resultado e como se preparar para essa transição que durará até 2033.
O que Muda com a Reforma Tributária
A reforma tributária simplifica o sistema tributário brasileiro substituindo cinco tributos por dois:
Tributos Extintos (Gradualmente até 2033):
- PIS (Programa de Integração Social)
- COFINS (Contribuição para Financiamento da Seguridade Social)
- IPI (Imposto sobre Produtos Industrializados)
- ICMS (Imposto sobre Circulação de Mercadorias e Serviços)
- ISS (Imposto sobre Serviços)
Novos Tributos (A partir de 2026):
- CBS (Contribuição sobre Bens e Serviços) – Federal
- IBS (Imposto sobre Bens e Serviços) – Estadual/Municipal
Alíquota Padrão Estimada: 27,5% (somando CBS + IBS)
Para entender melhor a estrutura completa da DRE antes dessas mudanças, veja nosso guia completo sobre DRE
Impactos na Estrutura da DRE
Como é Hoje (Sistema Atual):
| Descrição | % s/ RB | Valor (R$) |
|---|---|---|
| Receita Bruta de Vendas | — | 1.000.000,00 |
| (–) Deduções da Receita Bruta | ||
| • PIS | 1,65% | 16.500,00 |
| • COFINS | 7,60% | 76.000,00 |
| • ICMS | 18,00% | 180.000,00 |
| • ISS* | 5,00% | 50.000,00 |
| Total de Deduções | 322.500,00 | |
| (=) Receita Líquida | 677.500,00 |
* ISS aplicável apenas quando houver prestação de serviços.
Como Será (Novo Sistema – A partir de 2026):
| Descrição | % s/ RB | Valor (R$) |
|---|---|---|
| Receita Bruta de Vendas | — | 1.000.000,00 |
| (–) Deduções da Receita Bruta | ||
| • CBS (estimado) | 10,00% | 100.000,00 |
| • IBS (estimado) | 17,50% | 175.000,00 |
| Total de Deduções | 275.000,00 | |
| (=) Receita Líquida | 725.000,00 |
* Alíquotas estimadas para fins de simulação. Podem variar por regime, setor e regras de transição.
Resultado: Estrutura mais simples, mas impacto nas margens!
Principais Mudanças na DRE
1. Simplificação da Linha “Deduções”
Antes: 4 a 5 linhas diferentes (PIS, COFINS, IPI, ICMS, ISS)
Depois: Apenas 2 linhas (CBS e IBS)
Veja a estrutura detalhada no nosso artigo sobre estrutura da DRE.
Vantagem:
- Facilita a leitura e compreensão
- Reduz complexidade de cálculo
- Padroniza entre todos os setores
2. Mudança na Receita Líquida
Com alíquotas diferentes, a receita líquida será diferente mesmo com a mesma receita bruta:
| Cenário | Receita Bruta | Tributos | Receita Líquida | Diferença |
|---|---|---|---|---|
| Sistema Atual | R$ 1.000.000 | 32,25% | R$ 677.500 | – |
| Nova Reforma | R$ 1.000.000 | 27,50% | R$ 725.000 | +7% 🔼 |
Atenção: Alíquotas variam por setor (alguns terão redução, outros aumento)!
A receita líquida é um dos indicadores mais importantes da DRE. Com a reforma, sua análise histórica precisará considerar essas mudanças metodológicas.
3. Impacto nas Margens de Lucro
A reforma afeta todos os indicadores de rentabilidade:
Margem Bruta:
- Se tributos diminuem → Receita Líquida aumenta → Margem Bruta aumenta
- Mas custos com tributos na cadeia também mudam
Exemplo Prático:
SISTEMA ATUAL:
| Descrição | Valor (R$) |
|---|---|
| Receita Líquida | 677.500,00 |
| (–) CMV | 400.000,00 |
| (=) Lucro Bruto | 277.500,00 |
| Margem Bruta | 40,96% (≈ 41%) |
Fórmula: Margem Bruta = Lucro Bruto ÷ Receita Líquida = 277.500 ÷ 677.500.
NOVO SISTEMA (CBS/IBS):
| Descrição | Valor (R$) |
|---|---|
| Receita Líquida | 725.000,00 |
| (–) CMV | 400.000,00 |
| (=) Lucro Bruto | 325.000,00 |
| Margem Bruta | 44,83% (≈ 45%) |
Variação vs. margem anterior 40,96%: +3,87 p.p. (≈ +4 p.p.).
Fórmula: Margem = Lucro Bruto ÷ Receita Líquida = 325.000 ÷ 725.000.
4. Não Cumulatividade Plena
A reforma traz não cumulatividade ampla:
Hoje:
- PIS/COFINS não cumulativo só para Lucro Real
- ICMS com regras complexas por estado
- IPI com exceções
Depois:
- CBS e IBS 100% não cumulativos para todos
- Crédito em todas as etapas da cadeia
- Fim da guerra fiscal entre estados
Impacto na DRE:
- Mais créditos tributários a recuperar
- Pode reduzir CMV (se fornecedor repassa crédito)
- Melhor para empresas B2B
5. Split Payment: Mudança no Timing
Embora não altere a estrutura da DRE, o split payment muda o momento do registro:
Sistema Atual:
- Cliente paga R$ 1.000
- Empresa recebe R$ 1.000
- Depois recolhe R$ 275 de impostos
Novo Sistema (Split Payment):
- Cliente paga R$ 1.000
- Sistema separa automaticamente R$ 275
- Empresa recebe direto R$ 725
Na DRE: O registro contábil permanece o mesmo (regime de competência), mas o controle de caixa muda completamente!
Para entender os impactos do split payment no fluxo de caixa, leia nosso artigo completo sobre Split Payment e DFC
Setores Mais Impactados
Setores com REDUÇÃO de Carga (Beneficiados):
Indústria:
- IPI zerado para maioria
- CBS/IBS menores que carga atual
- Mais créditos na cadeia
Exportadores:
- Desoneração completa
- Créditos acumulados compensáveis
Serviços B2B:
- Fim do ISS fixo
- Não cumulatividade beneficia
Setores com AUMENTO de Carga (Atenção):
Serviços ao Consumidor Final:
- ISS era 2-5%, pode ir a 17,5%
- Sem compensação (consumidor não tem CNPJ)
Comércio Varejista:
- Margem estreita sofre mais
- Aumento de 5-7 pontos na alíquota
Simples Nacional:
- Permanece, mas com ajustes
- Alguns optantes podem sair do regime
A análise setorial deve considerar não apenas a DRE, mas também o balanço patrimonial e o fluxo de caixa de forma integrada.”
Período de Transição (2026-2033)
A mudança será gradual:
Calendário da Transição:
| Ano | CBS | IBS | PIS/COFINS | ICMS | ISS | IPI |
|---|---|---|---|---|---|---|
| 2026 | 0,9% | 0,1% | Integral | Integral | Integral | Zerado |
| 2027 | 1,8% | 0,2% | Reduz | Reduz | Reduz | Zero |
| 2029 | 5,4% | 5,2% | 66% | 80% | 80% | Zero |
| 2031 | 8,1% | 10,4% | 33% | 40% | 40% | Zero |
| 2033 | 10% | 17,5% | Zero | Zero | Zero | Zero |
Alíquotas ilustrativas – valores finais dependem de regulamentação
Desafios na Transição:
- Manter Duas DREs em Paralelo
- Uma no sistema antigo (comparação histórica)
- Uma no sistema novo (realidade atual)
- Ajustar Sistemas Contábeis
- ERP precisa calcular ambos os regimes
- Adequação gradual de processos
- Requalificar Equipes
- Contadores precisam dominar novo sistema
- Treinamento contínuo por 7 anos
- Comunicação com Stakeholders
- Explicar mudanças nas margens
- Justificar variações nos indicadores
Como Preparar sua Empresa
Passo 1: Simular o Impacto (AGORA – 2025)
✅ Refaça sua DRE aplicando as alíquotas estimadas de CBS/IBS
✅ Compare margens: atual vs. projetada
✅ Identifique se sua empresa será beneficiada ou prejudicada
✅ Calcule o impacto no preço de venda necessário
Passo 2: Ajustar Precificação (2025-2026)
✅ Revise todos os preços considerando nova carga tributária
✅ Negocie com fornecedores (eles também serão impactados)
✅ Atualize tabelas de preço antes de 2026
✅ Comunique clientes sobre ajustes necessários
Passo 3: Atualizar Sistemas (2025-2026)
✅ Verifique se seu ERP suporta CBS/IBS
✅ Teste cálculos em ambiente homologação
✅ Treine equipe no novo sistema
✅ Implemente split payment quando obrigatório
Passo 4: Documentar Mudanças (A partir de 2026)
✅ Crie notas explicativas detalhando a transição
✅ Mantenha DREs comparativas (sistema antigo x novo)
✅ Explique variações de margem aos stakeholders
✅ Documente premissas e critérios adotados
Passo 5: Monitorar Continuamente (2026-2033)
✅ Acompanhe ajustes na regulamentação
✅ Revise projeções anualmente
✅ Ajuste estratégia conforme necessário
✅ Aproveite oportunidades (créditos, planejamento)
Oportunidades com a Reforma
Não é só desafio! A reforma também traz oportunidades:
1. Recuperação de Créditos Tributários
Com não cumulatividade plena:
- Mais itens geram crédito
- Aproveitamento integral na cadeia
- Possível redução de carga efetiva
2. Simplificação de Processos
Menos tributos = menos obrigações:
- Redução de obrigações acessórias
- Unificação de apuração
- Menos risco de erro
3. Planejamento Tributário Mais Claro
Sistema mais simples permite:
- Modelagens mais precisas
- Menos espaço para interpretação
- Mais segurança jurídica
4. Competitividade Setorial
Se seu setor for beneficiado:
- Redução de custos
- Margem maior sem subir preço
- Possibilidade de ganhar mercado
Checklist: Está Pronto para a Reforma?
Conhecimento:
- Equipe contábil capacitada em CBS/IBS
- Gestores entendem impactos no negócio
- Simulações de impacto já realizadas
Sistemas:
- ERP atualizado ou em processo
- Testes de cálculo realizados
- Split payment implementável
Processos:
- Precificação revista
- Fornecedores alinhados
- Fluxo de caixa recalculado
Comunicação:
- Stakeholders informados
- Notas explicativas preparadas
- Plano de transição documentado
Conclusão
A reforma tributária representa a maior mudança no sistema tributário brasileiro em décadas. Para a DRE, isso significa uma simplificação estrutural, mas também ajustes significativos em margens, indicadores e análises comparativas.
Principais Pontos:
✅ Estrutura da DRE fica mais simples (2 tributos vs 5)
✅ Alíquotas mudam – impacto varia por setor
✅ Transição gradual 2026-2033 exige planejamento
✅ Split payment muda timing de caixa (não DRE)
✅ Oportunidades de crédito e planejamento tributário
Ação Imediata:
Não espere 2026! Comece agora a simular impactos, treinar equipes e ajustar processos. Empresas que se anteciparem terão vantagem competitiva.
Leia também:
- DRE: Demonstração do Resultado do Exercício – Guia Completo
- Split Payment na Reforma Tributária
- Encerramento de Balanço 2025
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