As MPMs (Management-Defined Performance Measures) são um dos pontos mais práticos — e mais sensíveis — trazidos pelo IFRS 18. Na rotina, muitas empresas já divulgam “lucro operacional ajustado”, “EBITDA ajustado” e medidas semelhantes em apresentações, releases e materiais de RI. O que muda é que o IFRS 18 passa a exigir regras formais de divulgação, com reconciliação e transparência (inclusive com efeitos de imposto e NCI por item).
Mesmo com vigência obrigatória a partir de 2027 (com adoção antecipada permitida), 2025/2026 é o período ideal para organizar dados, padronizar critérios e evitar “correria” no ano de adoção.
Índice
- O que são MPMs no IFRS 18
- O que entra e o que fica fora do escopo
- Como divulgar: a “nota única” de MPMs
- Reconciliação: tabela-exemplo completa
- Passo a passo para 2025–2026 (preparação)
- Modelo de nota explicativa (copiar e adaptar)
- Erros comuns e como evitar
1) O que são MPMs no IFRS 18
O IFRS 18 introduz as Management-Defined Performance Measures (MPMs) como subtotais de receitas e despesas que refletem a visão da administração sobre desempenho. Para uma medida ser MPM, ela precisa atender, em essência, a três condições:
- ser um subtotal de P&L (receitas e despesas);
- ser usada em comunicação pública fora das demonstrações financeiras;
- não ser um subtotal já “listado” pelo IFRS 18 e não ser exigida por outra norma.
Em outras palavras: se a empresa apresenta “lucro operacional ajustado” ao mercado, e esse subtotal não é um subtotal IFRS “padronizado”, então isso tende a entrar no campo de MPM — e passa a exigir disciplina de divulgação.
2) O que entra e o que fica fora do escopo
Use esta regra simples: se não for subtotal de receitas e despesas, não é MPM.
| Medida | É MPM? | Motivo prático |
|---|---|---|
| Lucro operacional ajustado | ✅ Sim | Subtotal de P&L e “visão gerencial” do desempenho |
| EBITDA ajustado | ⚠️ Depende | Se for tratado como subtotal de P&L (com definição consistente e reconciliação) |
| Margem bruta quando derivada diretamente de linhas IFRS | ❌ Não | É um derivado do próprio P&L (não “management-defined”) |
| Fluxo de caixa livre | ❌ Não | Medida de caixa, não subtotal de receitas/despesas |
| KPIs operacionais (churn, NPS, produção) | ❌ Não | Não são medidas contábeis de P&L |
📌 Dica: comece mapeando as linhas da DRE e os subtotais que sua empresa já comunica ao público.
3) Como divulgar: a “nota única” de MPMs
O IFRS 18 pede que as MPMs sejam apresentadas em uma única nota, claramente identificada, reunindo tudo o que é exigido sobre essas medidas. Para cada MPM, essa nota deve conter:
- o que é a MPM e por que a administração a utiliza;
- como é calculada (definição objetiva, componentes e critérios);
- reconciliação numérica com o subtotal IFRS mais comparável;
- efeitos de imposto e efeitos de NCI para cada item de ajuste;
- comparativos do período anterior;
- explicação de mudanças na medida (se mudar a fórmula, ajustar critérios, criar ou descontinuar MPM).
Esse pacote transforma MPM em algo “auditável” e padronizável. E é justamente aí que mora o ganho: menos ambiguidade, mais comparabilidade.
4) Reconciliação: tabela-exemplo completa
Exemplo didático: do Lucro Operacional (subtotal IFRS) para Lucro Operacional Ajustado (MPM).
| Itens de reconciliação | Ajuste bruto (R$) | Imposto (R$) | NCI (R$) | Ajuste líquido (R$) |
|---|---|---|---|---|
| Lucro operacional (IFRS) | — | — | — | 120.000 |
| (+) Reestruturação | 18.000 | (4.500) | (900) | 12.600 |
| (+) Litígio não recorrente | 10.000 | (2.500) | — | 7.500 |
| (+) Ajustes de PPA | 6.000 | (1.500) | (300) | 4.200 |
| Subtotal de ajustes | 34.000 | (8.500) | (1.200) | 24.300 |
| Lucro operacional ajustado (MPM) | 144.300 |
Boas práticas para a reconciliação:
- Nomeie ajustes por natureza (reestruturação, litígio, PPA).
- Defina “não recorrente” com critérios documentados (e não por conveniência).
- Trate IR e NCI por item, evitando “imposto total” jogado no rodapé sem rastreabilidade.
5) Passo a passo para 2025–2026 (preparação)
- Inventarie todas as medidas já usadas publicamente (apresentações, releases, site).
- Para cada medida, defina: dono do processo, fórmula, ajustes elegíveis e fonte do dado.
- Escolha o subtotal IFRS comparável (ex.: lucro operacional) para cada MPM.
- Padronize a reconciliação com colunas: bruto → IR → NCI → líquido.
- Ajuste o plano de contas/BI para “marcar” ajustes e automatizar reconciliações.
- Teste 2025↔2026 com comparativos, versionando a nota (auditoria agradece).
6) Modelo de nota explicativa (copiar e adaptar)
Nota X — Medidas de Desempenho Definidas pela Administração (MPMs)
Por que usamos esta medida
A administração utiliza a [Nome da MPM] para avaliar [aspecto do desempenho], pois entende que essa medida [explica o racional: ex. isola itens não recorrentes e melhora leitura de tendência operacional].
Como calculamos
A [Nome da MPM] é calculada a partir do [Subtotal IFRS comparável], ajustada pelos itens abaixo, definidos conforme [política interna / critério de recorrência / materialidade].
Reconciliação com o subtotal IFRS mais comparável (R$ mil)
(Inserir tabela com: Ajuste bruto | Imposto | NCI | Ajuste líquido)
Mudanças na MPM
Em [ano], a administração [alterou/incluiu/excluiu] a MPM por [motivo]. Os comparativos foram [reapresentados / não reapresentados por impraticabilidade], com explicação dos efeitos.
Limitações
A MPM não é medida IFRS e não deve ser considerada isoladamente. Pode não ser comparável com medidas semelhantes divulgadas por outras entidades.
7) Erros comuns e como evitar
- Chamar de MPM o que é caixa (ex.: FCF): mantenha como KPI financeiro fora do escopo.
- Ajustes “genéricos” (ex.: “outros”): substitua por categorias rastreáveis.
- Falta de política de imposto/NCI: defina método e aplique por item.
- Medida mudando todo ano: documente critérios e mantenha consistência.


