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O teste de impairment é um dos procedimentos mais críticos do encerramento de balanço 2025. Com o cenário econômico desafiador e as incertezas da Reforma Tributária, identificar perdas no valor recuperável de ativos tornou-se ainda mais relevante para garantir demonstrações financeiras fidedignas.
Este guia prático apresenta o passo a passo para executar o teste de impairment conforme IAS 36 e CPC 01, com foco nas particularidades do fechamento 2025.
O Que é Impairment e Quando Aplicar
Impairment é a perda no valor recuperável de um ativo. Ocorre quando o valor contábil excede o montante que a empresa conseguirá recuperar por meio do uso ou venda do ativo.
Teste obrigatório anualmente:
- Ágio por expectativa de rentabilidade futura (goodwill)
- Ativos intangíveis com vida útil indefinida
- Ativos intangíveis ainda não disponíveis para uso
Teste obrigatório quando houver indicadores:
- Imobilizado
- Intangíveis com vida útil definida
- Investimentos em controladas e coligadas
- Direito de uso (arrendamentos)
A regra é clara: na ausência de indicadores, não há obrigação de testar ativos com vida útil definida. Porém, no encerramento 2025, recomenda-se cautela redobrada na identificação de indicadores.
Indicadores de Perda: O Que Observar em 2025
O CPC 01 lista indicadores externos e internos que sinalizam possível perda de valor. No contexto atual, alguns merecem atenção especial.
Indicadores Externos
Queda no valor de mercado: redução superior a 20% no valor de mercado do ativo ou queda persistente por mais de 12 meses indica necessidade de teste.
Mudanças no ambiente econômico: a transição para o IVA dual pode impactar setores específicos. Empresas com margens dependentes de benefícios fiscais de ICMS devem avaliar impactos em suas unidades geradoras de caixa.
Aumento de taxas de juros: a elevação da Selic afeta diretamente a taxa de desconto utilizada no cálculo do valor em uso, podendo revelar perdas antes inexistentes.
Valor de mercado inferior ao patrimônio: quando a capitalização de mercado de uma empresa fica abaixo do patrimônio líquido contábil, é forte indicador de impairment em ativos.
Indicadores Internos
Obsolescência tecnológica: ativos afetados por novas tecnologias ou mudanças regulatórias exigem avaliação.
Desempenho abaixo do esperado: fluxos de caixa operacionais ou EBITDA inferiores às projeções originais.
Reestruturações: planos de descontinuação de linhas de produtos, fechamento de unidades ou redução de operações.
Danos físicos: deterioração de equipamentos, instalações ou outros ativos tangíveis.
Passo a Passo do Teste de Impairment
Passo 1: Identificar Unidades Geradoras de Caixa (UGC)
A UGC é o menor grupo de ativos que gera fluxos de caixa independentes. A definição correta é fundamental porque o teste é realizado por UGC, não por ativo individual.
Critérios: independência dos fluxos de caixa, gestão operacional integrada e mercado atendido.
Passo 2: Alocar o Ágio às UGCs
O goodwill deve ser alocado às UGCs que se beneficiam das sinergias da combinação de negócios. A alocação deve ser feita na data da aquisição e revisada em reorganizações societárias.
Passo 3: Calcular o Valor Recuperável
O valor recuperável é o maior entre:
Valor justo líquido de despesas de venda:
- Preço em transação não forçada entre partes conhecedoras
- Menos custos incrementais diretamente atribuíveis à venda
- Fontes: transações recentes, múltiplos de mercado, avaliações independentes
Valor em uso:
- Valor presente dos fluxos de caixa futuros esperados
- Projeções baseadas em premissas razoáveis e fundamentadas
- Horizonte típico de 5 anos + valor terminal
Passo 4: Definir Premissas do Valor em Uso
As premissas são o coração do teste e devem ser documentadas detalhadamente.
Fluxos de caixa:
- Basear em orçamentos e projeções aprovados pela administração
- Período máximo de 5 anos para projeções detalhadas
- Excluir fluxos de financiamento e tributos sobre o lucro
- Não incluir benefícios de investimentos futuros não comprometidos
Taxa de crescimento na perpetuidade:
- Não deve exceder a taxa média de longo prazo do setor ou país
- Taxas entre 0% e 3% são comuns no Brasil
Taxa de desconto:
- Refletir o valor do dinheiro no tempo e riscos específicos do ativo
- Utilizar WACC (custo médio ponderado de capital) como base
- Ajustar para riscos não refletidos nos fluxos de caixa
Passo 5: Comparar e Reconhecer a Perda
Compare o valor contábil da UGC com seu valor recuperável.
Se valor contábil > valor recuperável:
- Reconhecer perda por impairment no resultado
- Alocar primeiro ao ágio da UGC
- Depois, proporcionalmente aos demais ativos
- Não reduzir ativos abaixo de seu valor recuperável individual
Se valor contábil ≤ valor recuperável:
- Não há perda a reconhecer
- Documentar o teste realizado
Divulgações Obrigatórias
O CPC 01 exige divulgações extensas para UGCs com ágio:
- Valor contábil do ágio alocado
- Base para determinação do valor recuperável
- Premissas-chave utilizadas (taxa de desconto, crescimento, margens)
- Período de projeção e taxa de crescimento na perpetuidade
- Taxa de desconto aplicada
- Análise de sensibilidade para premissas com risco de ajuste material
Erros Comuns a Evitar
Documentação inadequada: principal causa de ressalvas de auditoria.
Premissas otimistas: projeções devem refletir a melhor estimativa, não cenários ideais.
Ignorar indicadores: não realizar o teste quando há indicadores claros pode configurar erro contábil.
Taxa de desconto genérica: utilizar taxas sem considerar riscos específicos da UGC compromete o teste.
Conclusão
O teste de impairment no encerramento 2025 exige rigor técnico e documentação robusta. O cenário de transição tributária e volatilidade econômica amplia a importância de identificar corretamente indicadores de perda e calcular o valor recuperável com premissas fundamentadas.
Empresas que executarem o procedimento de forma sistemática estarão protegidas de ajustes futuros e demonstrarão transparência aos usuários das demonstrações financeiras.


