Balancete de Suspensão e Redução no Lucro Real: Como Usar no Último Trimestre para Não Antecipar IRPJ e CSLL a Mais

Profissional de controladoria revisa no notebook o balancete de suspensão do Lucro Real, comparando IRPJ e CSLL acumulados com as estimativas

Em resumo: o balancete de suspensão e redução compara o IRPJ e a CSLL devidos sobre o lucro real acumulado desde janeiro com a soma das estimativas dos meses anteriores. Se o acumulado já está coberto, a empresa suspende o pagamento do mês. Se falta pouco, paga só a diferença. No último trimestre, a técnica rende mais: o ano já mostrou a margem real, ainda há quatro estimativas por vencer e tudo o que for antecipado a mais só volta como saldo negativo depois de encerrado o ano, sem poder quitar estimativas. No caso deste artigo, uma indústria que paga R$ 306 mil por mês pela receita bruta deixa de antecipar R$ 1,22 milhão ao levantar balancetes de setembro a dezembro. Mas o balancete só vale se estiver escriturado até o vencimento: sem isso, cada estimativa suspensa pode custar multa isolada de 50%.

Para quem apura o Lucro Real anual, a estimativa mensal pela receita bruta é o caminho mais simples. Aplica-se o percentual de presunção sobre o faturamento do mês, calcula-se o imposto e paga-se o DARF até o último dia útil do mês seguinte. O atalho tem um custo: ele presume uma margem que a empresa pode não ter.

O guia de apuração do Lucro Real apresentou o balancete de suspensão como a ferramenta que corrige essa distância, e o artigo sobre prejuízo fiscal no Lucro Real mostrou como a trava de 30% limita a compensação. O checklist de fechamento do 3º trimestre colocou a suspensão das estimativas entre as decisões que saem do fechamento de setembro.

Este texto trata da técnica em si, no momento em que ela mais rende: o fim do ano. Mostra como a comparação é feita, o que o balancete precisa ter para valer e por que as estimativas que vencem de outubro a janeiro são as que mais custam quando antecipadas a mais.

Balancete de suspensão e redução: a regra

A comparação é sempre acumulada

A base está no art. 35 da Lei nº 8.981/1995 e no art. 47 da IN RFB nº 1.700/2017. A empresa que paga por estimativa pode levantar um balanço ou balancete do período em curso, de 1º de janeiro até o último dia do mês, e apurar sobre ele o lucro real e a base da CSLL, com todas as adições, exclusões e compensações admitidas (IN RFB nº 1.700/2017, art. 49).

Sobre esse resultado acumulado, calcula o IRPJ, de 15% mais o adicional, e a CSLL, de 9% para a maioria das empresas. Depois compara cada tributo com a soma das estimativas devidas nos meses anteriores do mesmo ano, calculadas pela receita bruta ou por balancetes de redução (art. 47, §§ 5º e 6º). O resultado decide o mês:

Resultado do balanceteDecisão do mêsFundamento
Tributo do período igual ou menor que as estimativas anterioresSuspende o pagamentoIN RFB 1.700/2017, art. 47, I e III
Tributo do período maior que as estimativas anteriores, com diferença menor que a estimativa pela receitaPaga só a diferença (redução)IN RFB 1.700/2017, art. 47, II e IV
Prejuízo fiscal ou base negativa no períodoDispensa o pagamentoLei 8.981/1995, art. 35, § 2º
Diferença maior que a estimativa pela receita brutaO balancete não compensa: paga pela receita brutaOpção feita mês a mês

Três detalhes da regra mudam a conta:

  • IRPJ e CSLL têm comparações separadas. Quem suspende ou reduz o IRPJ em um mês deve apurar a CSLL do mesmo mês pelo balancete (art. 47, § 1º). Os dois tributos podem ter resultados diferentes: um suspenso, o outro reduzido.
  • O adicional é proporcional aos meses. O limite do adicional de 10% é de R$ 20 mil multiplicado pelo número de meses do período (IN RFB nº 1.700/2017, art. 29, § 1º). No balancete de setembro, são R$ 180 mil. No de dezembro, R$ 240 mil.
  • A compensação também entra. Prejuízo fiscal e base negativa de anos anteriores reduzem o resultado do período, dentro da trava de 30% (IN RFB nº 1.700/2017, art. 64).

O que o balancete precisa ter para valer

O balancete de suspensão não é um relatório gerencial. Ele precisa ser:

  • levantado com as leis comerciais e fiscais, com os estoques levantados e avaliados no fim do período (IN RFB nº 1.700/2017, art. 49, §§ 2º e 4º);
  • escriturado a tempo, no livro Diário e no e-Lalur, até a data fixada para o pagamento do mês (art. 52, § 4º);
  • refeito a cada mês, com um novo lucro real para todo o período em curso, desconsiderando os anteriores, e com adições, exclusões e compensações discriminadas na Parte A do e-Lalur e do e-Lacs, sem registro na Parte B (art. 50).

Na ECF do ano seguinte, os meses de balancete são identificados no registro de abertura e ganham uma apuração própria, nos períodos A01 a A12. É ali que a Receita confere se o balancete de outubro existia, se batia com a ECD e se sustentava a suspensão.

Por que o último trimestre pesa mais

Em fevereiro, o balancete é uma aposta: há pouco resultado acumulado e muita incerteza sobre o ano. Em setembro, já são nove meses de margem real escriturada, e a comparação com as estimativas pagas tende a ser estável. Ao mesmo tempo, ainda faltam quatro estimativas: a de setembro, que vence no último dia útil de outubro, as de outubro e novembro, e a de dezembro, que vence no último dia útil de janeiro (IN RFB nº 1.700/2017, art. 56).

E o que for antecipado a mais não volta rápido. O excesso das estimativas sobre o tributo do ano vira saldo negativo, que só pode ser restituído ou compensado depois de encerrado o ano, com juros pela Selic a partir de fevereiro (IN RFB nº 1.700/2017, art. 57, § 3º). Esse saldo também não serve para quitar as estimativas do ano seguinte, porque a Lei nº 9.430/1996 veda a compensação de débitos de estimativa mensal (art. 74, § 3º, IX). O dinheiro não se perde, mas fica parado e com uso restrito.

Uma indústria, quatro estimativas e R$ 1,2 milhão de antecipação

Uma indústria no Lucro Real anual fatura R$ 10 milhões por mês e paga as estimativas pela receita bruta desde janeiro. Os percentuais de presunção da atividade são de 8% para o IRPJ e de 12% para a CSLL (IN RFB nº 1.700/2017, arts. 33 e 34). A estimativa de cada mês fica assim:

TributoBase estimadaCálculoEstimativa do mês
IRPJR$ 800.000,0015%, mais 10% sobre o que passa de R$ 20 milR$ 198.000,00
CSLLR$ 1.200.000,009%R$ 108.000,00
TotalR$ 306.000,00

No início de outubro, a controladoria fecha o balancete de janeiro a setembro. O lucro líquido do período é de R$ 5,4 milhões. Somadas as adições, de R$ 600 mil, e descontadas as exclusões, de R$ 1 milhão, o lucro ajustado chega a R$ 5 milhões: uma margem de 5,6% sobre a receita, abaixo dos 8% que a estimativa presume. A empresa tem ainda R$ 4 milhões de prejuízo fiscal e de base negativa de anos anteriores.

Balancete de janeiro a setembroIRPJCSLL
Lucro ajustado do períodoR$ 5.000.000,00R$ 5.000.000,00
(–) Compensação, limitada a 30%R$ 1.500.000,00R$ 1.500.000,00
Base do períodoR$ 3.500.000,00R$ 3.500.000,00
Tributo do períodoR$ 857.000,00 (15%, mais 10% sobre o que passa de R$ 180 mil)R$ 315.000,00 (9%)
Estimativas devidas de janeiro a agostoR$ 1.584.000,00R$ 864.000,00
Decisão para setembroSuspendeSuspende

A empresa repete o balancete nos meses seguintes. Com lucro ajustado de R$ 550 mil por mês no último trimestre, a folga diminui, mas não acaba. As estimativas anteriores ficam paradas em R$ 1.584.000,00 de IRPJ e R$ 864.000,00 de CSLL, porque os meses suspensos não somam nada à conta:

BalanceteBase do períodoIRPJ do períodoCSLL do períodoDecisão
Janeiro a setembroR$ 3.500.000,00R$ 857.000,00R$ 315.000,00Suspende
Janeiro a outubroR$ 3.885.000,00R$ 951.250,00R$ 349.650,00Suspende
Janeiro a novembroR$ 4.270.000,00R$ 1.045.500,00R$ 384.300,00Suspende
Janeiro a dezembroR$ 4.655.000,00R$ 1.139.750,00R$ 418.950,00Suspende

O balancete de dezembro coincide com a apuração anual. Comparando os dois caminhos:

Só receita brutaBalancetes de setembro a dezembro
Estimativas pagas no anoR$ 3.672.000,00R$ 2.448.000,00
IRPJ e CSLL devidos no anoR$ 1.558.700,00R$ 1.558.700,00
Saldo negativo a recuperar depois do anoR$ 2.113.300,00R$ 889.300,00

A tabela permite três leituras.

A diferença está na margem, não na alíquota. A estimativa presume 8% de lucro sobre a receita. A empresa entrega 5,6% antes da compensação, e a trava de 30% ainda tira R$ 1,5 milhão da base. É essa distância que o balancete transforma em caixa: R$ 1.224.000,00 que deixam de ser antecipados nas quatro últimas estimativas.

O passado não volta pelo balancete. Em setembro, as estimativas já devidas superavam o tributo do período em R$ 1.276.000,00. O balancete não devolve esse excesso. Ele só impede que o excesso cresça. O que sobrar no fim do ano, R$ 889.300,00 no caso, vira saldo negativo e segue as regras do pedido de restituição ou compensação. Com essa margem, a empresa ganharia mais começando os balancetes no primeiro semestre.

A folga encolhe a cada mês. A distância entre as estimativas anteriores e o IRPJ do período cai de R$ 727 mil em setembro para R$ 444 mil em dezembro. Se o lucro de novembro ou de dezembro saltar, por um contrato faturado no fim do ano ou pela reversão de uma provisão, a suspensão pode virar redução. Por isso, a decisão de cada mês sai do balancete daquele mês, e não da projeção feita em outubro.

Três armadilhas do balancete no fim do ano

O balancete precisa existir antes do vencimento

No fim do ano, é comum suspender o DARF com base em uma prévia e terminar o balancete depois, junto com o fechamento. A IN RFB nº 1.700/2017 trata disso de forma direta: se o livro Diário ou o e-Lalur não estiverem escriturados até a data do pagamento do mês, o balancete é desconsiderado para a suspensão (art. 52, § 4º).

Sem balancete válido, a estimativa suspensa vira estimativa não paga. A Lei nº 9.430/1996 prevê multa isolada de 50% sobre o pagamento mensal que deixou de ser feito, ainda que o ano termine com prejuízo fiscal (art. 44, II, “b”). No caso deste artigo, são R$ 153.000,00 por mês, ou R$ 612.000,00 nas quatro estimativas, mesmo com o tributo do ano inteiramente coberto.

Depois de encerrado o ano, a Receita não pode mais exigir a estimativa em si (Súmula CARF nº 82), mas a multa isolada continua cabível (IN RFB nº 1.700/2017, art. 53, I). O CARF afasta a multa quando a escrituração contábil e fiscal é suficiente para comprovar a suspensão, mesmo sem a transcrição formal no Diário, como prevê a Súmula CARF nº 93. A súmula protege quem tinha o balancete pronto e só deixou de transcrevê-lo. Não protege quem o montou depois.

Cada mês pede um novo balancete

A suspensão de setembro não carrega para outubro. Para suspender ou reduzir qualquer outro mês do ano, a empresa precisa levantar novo balanço ou balancete (IN RFB nº 1.700/2017, art. 47, § 3º). E o excesso apurado em um balancete não reduz a estimativa de um mês calculado pela receita bruta (§ 2º).

Se a indústria do caso pular o balancete de novembro, paga R$ 306.000,00 pela receita bruta no fim de dezembro, embora o acumulado até novembro mostre IRPJ de R$ 1.045.500,00 contra R$ 1.584.000,00 já devidos. Os R$ 306 mil vão direto para o saldo negativo do ano.

A empresa pode alternar entre receita bruta e balancete mês a mês, o que é útil quando um mês isolado não compensa o trabalho. Mas a alternância precisa ser uma decisão, e não um esquecimento no fechamento de novembro.

Adicional e incentivos contam pelo período inteiro

O balancete é uma apuração do período em curso, e os limites seguem essa lógica. No balancete de novembro, o limite do adicional é de R$ 220 mil. Quem usa só R$ 20 mil, como na estimativa mensal, calcula R$ 425.000,00 de adicional em vez de R$ 405.000,00. O IRPJ do período fica R$ 20 mil maior, o que, com a folga apertada, pode transformar uma suspensão em redução e antecipar imposto sem necessidade.

Com os incentivos de dedução do imposto, como o PAT, o erro costuma ir para o outro lado. No balancete, o incentivo é calculado pelo período inteiro, e as estimativas dos meses anteriores entram na comparação já diminuídas dos incentivos deduzidos nelas. Somar as duas coisas deduz o mesmo incentivo duas vezes, como esclareceu a Solução de Consulta Cosit nº 164/2020. E o valor deduzido como incentivo não conta como imposto pago por estimativa (IN RFB nº 1.700/2017, art. 47, § 4º).

O que fica para aprofundar

O caso deste artigo isolou uma indústria de margem estável e ajustes simples. Na prática, várias perguntas continuam abertas:

  • Juros sobre capital próprio no fim do ano: como o JCP deliberado em dezembro entra no balancete de dezembro, e como ele se cruza com os limites de dedutibilidade e com as regras atuais de base de cálculo?
  • Estoques e competência: como levantar e avaliar o estoque a cada balancete sem o livro de inventário (art. 49, §§ 2º e 3º), e o que fazer quando a contagem física de dezembro diverge dos balancetes anteriores?
  • Subvenções e incentivos de redução: como o crédito fiscal de subvenção para investimento e os incentivos calculados sobre o lucro da exploração entram em cada balancete?
  • e-Lalur e ECF: como cada balancete chega à Parte A do e-Lalur e do e-Lacs, aos períodos A01 a A12 e ao Bloco N, e como a apuração anual conversa com eles?
  • Saldo negativo: como compor o saldo negativo do ano no PER/DCOMP, com estimativas, retenções e incentivos, de forma que o pedido seja homologado?
  • Contabilização: como registrar a estimativa suspensa ou reduzida, a provisão de IRPJ e CSLL do período e o ajuste de dezembro?

Todas essas perguntas partem do mesmo ponto: apurar o lucro real do período com o rigor da apuração anual, escriturar a tempo e documentar cada decisão de suspensão.

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Prof. Lourivaldo Lopes da Silva, coordenador da Especialização Tributária em Lucro Real Avançado
Prof. Lourivaldo Lopes da SilvaMestre em Contabilidade (PUC) · Pós em Direito Tributário (IBET)

Auditor contábil e tributário, autor de obras de referência em tributação e professor reconhecido nacionalmente.

No programa

  1. 1 Estimativa e balanço de suspensão Receita bruta, percentuais, compensação de prejuízos e comparação do devido com o pago.
  2. 2 e-LALUR e e-LACS Parte A e Parte B, Bloco M, Bloco N e os registros dos balancetes de redução e suspensão.
  3. 3 Planejamento tributário Juros sobre capital próprio, subvenções, incentivos fiscais e distribuição de lucros.

Também: transição do Lucro Presumido para o Lucro Real, ativo imobilizado e impairment, e distribuição disfarçada de lucros.

Perguntas frequentes

1 – O que é o balancete de suspensão ou redução?

É o balanço ou balancete do período em curso, de janeiro até o mês, que a empresa do Lucro Real anual usa para comparar o IRPJ e a CSLL devidos sobre o lucro real acumulado com as estimativas devidas nos meses anteriores. Se o acumulado já está coberto, o pagamento do mês é suspenso. Se não está, é reduzido à diferença (Lei 8.981/1995, art. 35, e IN RFB 1.700/2017, art. 47).

2 – Dá para usar balancete em um mês e receita bruta em outro?

Sim. A escolha é feita mês a mês. Mas a suspensão vale só para o mês do balancete: para suspender outro mês, é preciso novo balancete, e o excesso apurado não reduz a estimativa calculada pela receita bruta (IN RFB 1.700/2017, art. 47, §§ 2º e 3º).

3 – O prejuízo fiscal de anos anteriores pode ser usado no balancete?

Pode. O resultado do período em curso é ajustado por todas as adições, exclusões e compensações admitidas, e a compensação de prejuízo fiscal e de base negativa respeita a trava de 30% (IN RFB 1.700/2017, arts. 49, § 1º, e 64).

4 – O que acontece se o balancete não estiver escriturado até o vencimento?

O balancete é desconsiderado para a suspensão ou a redução (IN RFB 1.700/2017, art. 52, § 4º), e a estimativa não paga fica sujeita à multa isolada de 50%, ainda que o ano termine com prejuízo fiscal (Lei 9.430/1996, art. 44, II, “b”). A Súmula CARF nº 93 afasta a multa quando a escrituração contábil e fiscal é suficiente para comprovar a suspensão, mesmo sem a transcrição no Diário.


Os valores do caso são didáticos. Para simplificar, as adições, as exclusões e os saldos de prejuízo fiscal e de base negativa são iguais para o IRPJ e a CSLL, o que raramente acontece na prática. A alíquota de 9% da CSLL é a da maioria das empresas. As normas citadas estão sujeitas a atualização.

Fontes e legislação

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