IFRS 18 no Meio de 2026: O que os Primeiros Adotantes Estão Descobrindo na Prática

IFRS 18 e demonstrações financeiras: profissional analisando os novos requisitos do CPC 51 em 2026

A adoção do IFRS 18 (equivalente ao CPC 51 no Brasil) já começou a transformar a forma como as empresas apresentam suas demonstrações financeiras. Embora sua aplicação obrigatória tenha iniciado recentemente, os primeiros meses de implementação já revelam desafios importantes, ajustes operacionais e oportunidades de melhoria na comunicação das informações financeiras.

Para profissionais da contabilidade, controladoria, auditoria e finanças corporativas, o cenário atual oferece uma oportunidade rara: aprender com os erros, acertos e lições das organizações que já iniciaram a adaptação aos novos requisitos.

Mas afinal, o que os primeiros adotantes estão descobrindo na prática?

O que é o IFRS 18 e por que ele está mudando a apresentação das demonstrações financeiras?

O IFRS 18 substitui a IAS 1 (Apresentação das Demonstrações Financeiras) e tem como principal objetivo aumentar a comparabilidade, transparência e consistência das informações apresentadas pelas empresas.

Embora não altere os critérios de reconhecimento e mensuração dos elementos patrimoniais, a norma promove mudanças profundas na forma como os resultados são apresentados.

Entre os principais objetivos estão:

  • Melhorar a comparabilidade entre empresas;
  • Reduzir interpretações excessivamente flexíveis na apresentação da DRE;
  • Criar subtotais padronizados;
  • Aumentar a transparência sobre medidas de desempenho utilizadas pela administração;
  • Facilitar análises por investidores, auditores e usuários externos.

Na prática, muitas empresas descobriram que a mudança é muito maior do que uma simples alteração de layout.

A primeira grande descoberta: a DRE precisará ser repensada

Um dos pontos que mais tem chamado atenção dos primeiros adotantes é a reorganização da Demonstração do Resultado do Exercício (DRE).

Historicamente, muitas empresas estruturavam a demonstração com alto grau de flexibilidade. O IFRS 18 reduz essa liberdade e exige uma classificação mais consistente dos resultados.

A norma introduz categorias específicas:

Resultado Operacional

Representa as atividades principais da empresa.

Resultado de Investimentos

Relacionado a investimentos que geram retorno independentemente das operações principais.

Resultado de Financiamento

Envolve despesas e receitas relacionadas à estrutura de capital e financiamentos.

Essa separação aparentemente simples tem gerado impactos significativos em empresas que possuíam classificações históricas diferentes.

Segunda descoberta: indicadores financeiros podem mudar sem que o negócio tenha mudado

Diversas empresas relataram que seus indicadores passaram a apresentar resultados diferentes após a reclassificação exigida pelo IFRS 18.

Importante destacar:

O desempenho operacional da empresa não mudou.

O que mudou foi a forma de apresentação dos números.

Isso afeta diretamente indicadores como:

  • EBITDA;
  • Margem Operacional;
  • Resultado Operacional;
  • Lucro antes dos tributos;
  • Indicadores de performance utilizados por investidores.

Em alguns casos, gestores relataram a necessidade de reexplicar resultados para acionistas, bancos e investidores, justamente porque a nova estrutura altera a leitura dos relatórios financeiros.

Terceira descoberta: as medidas não-GAAP passaram a exigir muito mais cuidado

Outro tema que vem gerando grande atenção é o tratamento das chamadas Medidas de Desempenho Gerencial (Management Performance Measures – MPMs).

Muitas organizações utilizam indicadores próprios para comunicar desempenho ao mercado.

Exemplos:

  • EBITDA Ajustado;
  • Lucro Operacional Ajustado;
  • Resultado Recorrente;
  • Lucro Caixa.

O IFRS 18 não proíbe esses indicadores.

Porém, passa a exigir:

  • Transparência na metodologia utilizada;
  • Reconciliação com valores das demonstrações financeiras;
  • Explicação das diferenças;
  • Divulgação consistente ao longo do tempo.

Na prática, empresas estão percebendo que determinados indicadores internos precisam ser revistos antes de serem apresentados ao mercado.

Quarta descoberta: tecnologia e ERP podem se tornar gargalos

Uma dificuldade recorrente observada nos primeiros projetos de implementação envolve os sistemas de informação.

Muitas empresas perceberam que:

  • O plano de contas atual não suporta a nova estrutura;
  • Relatórios gerenciais não geram as informações exigidas;
  • ERPs precisam de parametrizações adicionais;
  • Consolidações financeiras exigem ajustes manuais.

Por isso, organizações que iniciaram os preparativos apenas em 2026 estão enfrentando cronogramas mais apertados.

O trabalho deixou de ser exclusivamente contábil e passou a envolver:

  • Controladoria;
  • TI;
  • Auditoria;
  • Planejamento financeiro;
  • Governança corporativa.

Quinta descoberta: auditores estão exigindo documentação mais robusta

Outro ponto recorrente envolve a documentação das decisões tomadas durante a implementação.

Auditores vêm solicitando evidências sobre:

  • Critérios de classificação;
  • Definição das categorias da DRE;
  • Justificativas para reclassificações;
  • Políticas relacionadas às MPMs;
  • Consistência entre períodos comparativos.

Empresas que não documentam adequadamente as decisões correm maior risco de retrabalho durante auditorias e revisões independentes.

Case Prático: DRE Antes e Depois da Reclassificação IFRS 18

Uma das mudanças mais perceptíveis está na apresentação do resultado.

Exemplo simplificado – Modelo anterior

DescriçãoValor
Receita LíquidaR$ 10.000.000
Custos(R$ 6.000.000)
Lucro BrutoR$ 4.000.000
Despesas Operacionais(R$ 2.000.000)
Receitas FinanceirasR$ 300.000
Despesas Financeiras(R$ 700.000)
Lucro Antes dos TributosR$ 1.600.000

Exemplo simplificado – Estrutura alinhada ao IFRS 18

CategoriaValor
Resultado OperacionalR$ 2.000.000
Resultado de InvestimentosR$ 300.000
Resultado de Financiamento(R$ 700.000)
Lucro Antes dos TributosR$ 1.600.000

Observe que o lucro permanece exatamente o mesmo.

Entretanto, a forma de apresentação muda significativamente a interpretação do desempenho operacional da companhia.

É justamente essa maior clareza que o IFRS 18 busca proporcionar.

O que esperar para o segundo semestre de 2026?

À medida que mais empresas avançam na implementação, algumas tendências já começam a surgir:

  • Revisão de planos de contas;
  • Adequação de ERPs;
  • Atualização de manuais contábeis;
  • Capacitação das equipes financeiras;
  • Maior participação da controladoria no processo;
  • Integração entre contabilidade e governança corporativa.

Além disso, a expectativa é que auditores, investidores e órgãos reguladores passem a elevar gradualmente o nível de exigência relacionado às divulgações.

Como os profissionais podem se preparar?

O IFRS 18 não representa apenas uma atualização normativa.

Trata-se de uma mudança estrutural na forma de comunicar resultados financeiros.

Por isso, profissionais que dominarem rapidamente os novos conceitos tendem a ganhar vantagem competitiva em áreas como:

  • Contabilidade societária;
  • Auditoria independente;
  • Controladoria;
  • Consultoria contábil;
  • Planejamento financeiro;
  • Governança corporativa.

A capacitação prática torna-se fundamental para compreender as novas exigências e evitar erros que podem comprometer análises financeiras, auditorias e relatórios para investidores.

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Conclusão

Os primeiros meses de adoção do IFRS 18 mostram que a principal mudança não está nos números, mas na forma como eles são apresentados e interpretados.

Empresas que iniciaram a implementação cedo já identificaram desafios relacionados à classificação de resultados, adequação de sistemas, governança de indicadores e comunicação com investidores.

Para os profissionais da área contábil e financeira, acompanhar essas lições práticas desde agora é uma das melhores formas de se preparar para um ambiente regulatório que exige cada vez mais transparência, comparabilidade e qualidade das informações financeiras.