A adoção do IFRS 18 (equivalente ao CPC 51 no Brasil) já começou a transformar a forma como as empresas apresentam suas demonstrações financeiras. Embora sua aplicação obrigatória tenha iniciado recentemente, os primeiros meses de implementação já revelam desafios importantes, ajustes operacionais e oportunidades de melhoria na comunicação das informações financeiras.
Para profissionais da contabilidade, controladoria, auditoria e finanças corporativas, o cenário atual oferece uma oportunidade rara: aprender com os erros, acertos e lições das organizações que já iniciaram a adaptação aos novos requisitos.
Mas afinal, o que os primeiros adotantes estão descobrindo na prática?
O que é o IFRS 18 e por que ele está mudando a apresentação das demonstrações financeiras?
O IFRS 18 substitui a IAS 1 (Apresentação das Demonstrações Financeiras) e tem como principal objetivo aumentar a comparabilidade, transparência e consistência das informações apresentadas pelas empresas.
Embora não altere os critérios de reconhecimento e mensuração dos elementos patrimoniais, a norma promove mudanças profundas na forma como os resultados são apresentados.
Entre os principais objetivos estão:
- Melhorar a comparabilidade entre empresas;
- Reduzir interpretações excessivamente flexíveis na apresentação da DRE;
- Criar subtotais padronizados;
- Aumentar a transparência sobre medidas de desempenho utilizadas pela administração;
- Facilitar análises por investidores, auditores e usuários externos.
Na prática, muitas empresas descobriram que a mudança é muito maior do que uma simples alteração de layout.
A primeira grande descoberta: a DRE precisará ser repensada
Um dos pontos que mais tem chamado atenção dos primeiros adotantes é a reorganização da Demonstração do Resultado do Exercício (DRE).
Historicamente, muitas empresas estruturavam a demonstração com alto grau de flexibilidade. O IFRS 18 reduz essa liberdade e exige uma classificação mais consistente dos resultados.
A norma introduz categorias específicas:
Resultado Operacional
Representa as atividades principais da empresa.
Resultado de Investimentos
Relacionado a investimentos que geram retorno independentemente das operações principais.
Resultado de Financiamento
Envolve despesas e receitas relacionadas à estrutura de capital e financiamentos.
Essa separação aparentemente simples tem gerado impactos significativos em empresas que possuíam classificações históricas diferentes.
Segunda descoberta: indicadores financeiros podem mudar sem que o negócio tenha mudado
Diversas empresas relataram que seus indicadores passaram a apresentar resultados diferentes após a reclassificação exigida pelo IFRS 18.
Importante destacar:
O desempenho operacional da empresa não mudou.
O que mudou foi a forma de apresentação dos números.
Isso afeta diretamente indicadores como:
- EBITDA;
- Margem Operacional;
- Resultado Operacional;
- Lucro antes dos tributos;
- Indicadores de performance utilizados por investidores.
Em alguns casos, gestores relataram a necessidade de reexplicar resultados para acionistas, bancos e investidores, justamente porque a nova estrutura altera a leitura dos relatórios financeiros.
Terceira descoberta: as medidas não-GAAP passaram a exigir muito mais cuidado
Outro tema que vem gerando grande atenção é o tratamento das chamadas Medidas de Desempenho Gerencial (Management Performance Measures – MPMs).
Muitas organizações utilizam indicadores próprios para comunicar desempenho ao mercado.
Exemplos:
- EBITDA Ajustado;
- Lucro Operacional Ajustado;
- Resultado Recorrente;
- Lucro Caixa.
O IFRS 18 não proíbe esses indicadores.
Porém, passa a exigir:
- Transparência na metodologia utilizada;
- Reconciliação com valores das demonstrações financeiras;
- Explicação das diferenças;
- Divulgação consistente ao longo do tempo.
Na prática, empresas estão percebendo que determinados indicadores internos precisam ser revistos antes de serem apresentados ao mercado.
Quarta descoberta: tecnologia e ERP podem se tornar gargalos
Uma dificuldade recorrente observada nos primeiros projetos de implementação envolve os sistemas de informação.
Muitas empresas perceberam que:
- O plano de contas atual não suporta a nova estrutura;
- Relatórios gerenciais não geram as informações exigidas;
- ERPs precisam de parametrizações adicionais;
- Consolidações financeiras exigem ajustes manuais.
Por isso, organizações que iniciaram os preparativos apenas em 2026 estão enfrentando cronogramas mais apertados.
O trabalho deixou de ser exclusivamente contábil e passou a envolver:
- Controladoria;
- TI;
- Auditoria;
- Planejamento financeiro;
- Governança corporativa.
Quinta descoberta: auditores estão exigindo documentação mais robusta
Outro ponto recorrente envolve a documentação das decisões tomadas durante a implementação.
Auditores vêm solicitando evidências sobre:
- Critérios de classificação;
- Definição das categorias da DRE;
- Justificativas para reclassificações;
- Políticas relacionadas às MPMs;
- Consistência entre períodos comparativos.
Empresas que não documentam adequadamente as decisões correm maior risco de retrabalho durante auditorias e revisões independentes.
Case Prático: DRE Antes e Depois da Reclassificação IFRS 18
Uma das mudanças mais perceptíveis está na apresentação do resultado.
Exemplo simplificado – Modelo anterior
| Descrição | Valor |
|---|---|
| Receita Líquida | R$ 10.000.000 |
| Custos | (R$ 6.000.000) |
| Lucro Bruto | R$ 4.000.000 |
| Despesas Operacionais | (R$ 2.000.000) |
| Receitas Financeiras | R$ 300.000 |
| Despesas Financeiras | (R$ 700.000) |
| Lucro Antes dos Tributos | R$ 1.600.000 |
Exemplo simplificado – Estrutura alinhada ao IFRS 18
| Categoria | Valor |
|---|---|
| Resultado Operacional | R$ 2.000.000 |
| Resultado de Investimentos | R$ 300.000 |
| Resultado de Financiamento | (R$ 700.000) |
| Lucro Antes dos Tributos | R$ 1.600.000 |
Observe que o lucro permanece exatamente o mesmo.
Entretanto, a forma de apresentação muda significativamente a interpretação do desempenho operacional da companhia.
É justamente essa maior clareza que o IFRS 18 busca proporcionar.
O que esperar para o segundo semestre de 2026?
À medida que mais empresas avançam na implementação, algumas tendências já começam a surgir:
- Revisão de planos de contas;
- Adequação de ERPs;
- Atualização de manuais contábeis;
- Capacitação das equipes financeiras;
- Maior participação da controladoria no processo;
- Integração entre contabilidade e governança corporativa.
Além disso, a expectativa é que auditores, investidores e órgãos reguladores passem a elevar gradualmente o nível de exigência relacionado às divulgações.
Como os profissionais podem se preparar?
O IFRS 18 não representa apenas uma atualização normativa.
Trata-se de uma mudança estrutural na forma de comunicar resultados financeiros.
Por isso, profissionais que dominarem rapidamente os novos conceitos tendem a ganhar vantagem competitiva em áreas como:
- Contabilidade societária;
- Auditoria independente;
- Controladoria;
- Consultoria contábil;
- Planejamento financeiro;
- Governança corporativa.
A capacitação prática torna-se fundamental para compreender as novas exigências e evitar erros que podem comprometer análises financeiras, auditorias e relatórios para investidores.
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Conclusão
Os primeiros meses de adoção do IFRS 18 mostram que a principal mudança não está nos números, mas na forma como eles são apresentados e interpretados.
Empresas que iniciaram a implementação cedo já identificaram desafios relacionados à classificação de resultados, adequação de sistemas, governança de indicadores e comunicação com investidores.
Para os profissionais da área contábil e financeira, acompanhar essas lições práticas desde agora é uma das melhores formas de se preparar para um ambiente regulatório que exige cada vez mais transparência, comparabilidade e qualidade das informações financeiras.


